Gertrudes : Os Lusíadas : Canto X
LUSIADAS LOGOTIPO

CANTO X

          1 -

          Mas já o claro amador da Larisséia 
          Adúltera inclinava os animais 
          Lá pera o grande lago que rodeia 
          Temistitão, nos fins Ocidentais; 
          O grande ardor do Sol Favónio enfreia 
          Co sopro que nos tanques naturais 
          Encrespa a água serena e despertava 
          Os lírios e jasmins, que a calma agrava, 

          2 - - ( Banquete na Ilha dos Amores ) 

          Quando as fermosas Ninfas, cos amantes 
          Pela mão, já conformes e contentes, 
          Subiam pera os paços radiantes 
          E de metais ornados reluzentes, 
          Mandados da Rainha, que abundantes 
          Mesas d’altos manjares excelentes 
          Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza 
          Restaurem da cansada natureza. 

          3 - - ( Banquete aos Navegantes e às Ninfas

          Ali, em cadeiras ricas, cristalinas, 
          Se assentam dous e dous, amante e dama; 
          Noutras, à cabeceira, d’ouro finas, 
          Está co a bela Deusa o claro Gama. 
          De iguarias suaves e divinas, 
          A quem não chega a Egípcia antiga fama , 
          Se acumulam os pratos de fulvo ouro, 
          Trazidos lá do Atlântico tesouro. 

          4 -

          Os vinhos odoríferos, que acima 
          Estão não só do Itálico Falerno 
          Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima 
          Com todo o ajuntamento sempiterno, 
          Nos vasos, onde em vão trabalha a lima, 
          Crespas escumas erguem, que no interno 
          Coração movem súbita alegria, 
          Saltando co a mistura d’água fria. 

          5 -

          Mil práticas alegres se tocavam; 
          Risos doces, sutis e argutos ditos, 
          Que entre um e outro manjar se ale vantavam, 
          Despertando os alegres apetitos; 
          Músicos instrumentos não faltavam 
          (Quais, no profundo Reino, os nus espritos 
          Fizeram descansar da eterna pena) 
          Cüa voz düa angélica Sirena. 

          6 - - ( Canto de uma das Ninfas )  

          Cantava a bela Ninfa, e cos acentos, 
          Que pelos altos paços vão soando, 
          Em consonância igual, os instumentos 
          Suaves vêm a um tempo conformando. 
          Um súbito silêncio enfreia os ventos 
          E faz ir docemente murmurando 
          As águas, e nas casas naturais 
          Adormecer os brutos animais. 

          7 -

          Com doce voz está subindo ao Céu 
          Altos varões que estão por vir ao mundo, 
          Cujas claras Ideias viu Proteu 
          Num globo vão, diáfano, rotundo, 
          Que Júpiter em dom lho concedeu 
          Em sonhos, e despois no Reino fundo, 
          Vaticinando, o disse, e na memória 
          Recolheu logo a Ninfa a clara história. 

          8 - - ( Invocação do Poeta a Calíope, para que 
                 he permita concluir o poema )  
           

          Matéria é de coturno, e não de soco, 
          A que a Ninfa aprendeu no imenso lago; 
          Qual Iopas não soube, ou Demodoco, 
          Entre os Feaces um, outro em Cartago. 
          Aqui, minha Calíope, te invoco 
          Neste trabalho extremo, por que em pago 
          Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo, 
          O gosto de escrever, que vou perdendo. 

          9 - - ( Desalento do Poeta ) 

          Vão os anos descendo, e já do Estio 
          Há pouco que passar até o Outono; 
          A Fortuna me faz o engenho frio, 
          Do qual já não me jacto nem me abono; 
          Os desgostos me vão levando ao rio 
          Do negro esquecimento e eterno sono. 
          Mas tu me dá que cumpra, ó grão rainha 
          Das Musas, co que quero à nação minha! 

          10 - - ( Vaticínio dos Altos  Feitos dos  
                 Portugueses no Oriente )  

          Cantava a bela Deusa que viriam 
          Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira, 
          Armadas que as ribeiras venceriam 
          Por onde o Oceano Índico suspira; 
          E que os Gentios Reis que não dariam 
          A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira 
          Provariam do braço duro e forte, 
          Até render-se a ele ou logo à morte. 

          11 - - ( O rei de Cochim ) 

          Cantava dum que tem nos Malabares 
          Do sumo sacerdócio a dignidade, 
          Que, só por não quebrar cos singulares 
          Barões os nós que dera d’amizade, 
          Sofrerá suas cidades e lugares, 
          Com ferro, incêndios, ira e crueldade, 
          Ver destruir do Samorim potente, 
          Que tais ódios terá co a nova gente. 

          12 - - ( Duarte Pacheco Pereira ) 

          E canta como lá se embarcaria 
          Em Belém o remédio deste dano, 
          Sem saber o que em si ao mar traria, 
          O grão Pacheco, Aquiles Lusitano. 
          O peso sentirão, quando entraria, 
          O curvo lenho e o férvido Oceano, 
          Quando mais n’água os troncos que gemerem 
          Contra sua natureza se meterem. 

          13 -

          Mas, já chegado aos fins Orientais 
          E deixado em ajuda do gentio Rei de 
          Cochim, com poucos naturais, 
          Nos braços do salgado e curvo rio 
          Desbaratará os Naires infernais 
          No passo Cambalão, tornando frio 
          D’espanto o ardor imenso do Oriente, 
          Que verá tanto obrar tão pouca gente. 

          14 -

          Chamará o Samorim mais gente nova; 
          Virão Reis [de] Bipur e de Tanor, 
          Das serras de Narsinga, que alta prova 
          Estarão prometendo a seu senhor; 
          Fará que todo o Naire, enfim, se mova 
          Que entre Calecu jaz e Cananor, 
          D’ambas as Leis imigas pera a guerra: 
          Mouros por mar, Gentios pola terra. 

          15 - - ( Duarte Pacheco ) 

          E todos outra vez desbaratando, 
          Por terra e mar, o grão Pacheco ousado, 
          A grande multidão que irá matando 
          A todo o Malabar terá admirado. 
          Cometerá outra vez, não dilatando, 
          O Gentio os combates, apressado, 
          Injuriando os seus, fazendo votos 
          Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos. 

          16 -

          Já não defenderá somente os passos, 
          Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas; 
          Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos 
          Aqueles que as cidades fazem rasas, 
          Fará que os seus, de vida pouco escassos, 
          Cometam o Pacheco, que tem asas, 
          Por dous passos num tempo; mas voando 
          Dum noutro, tudo irá desbaratando. 

          17 -

          Virá ali o Samorim, por que em pessoa 
          Veja a batalha e os seus esforce e anime; 
          Mas um tiro, que com zunido voa, 
          De sangue o tingirá no andor sublime. 
          Já não verá remédio ou manha boa 
          Nem força que o Pacheco muito estime; 
          Inventará traições e vãos venenos, 
          Mas sempre (o Céu querendo) fará menos. 

          18 - - ( Duarte Pacheco ) 

          Que tornará a vez sétima (cantava) 
          Pelejar co invicto e forte Luso, 
          A quem nenhum trabalho pesa e agrava; 
          Mas, contudo, este só o fará confuso. 
          Trará pera a batalha, horrenda e brava, 
          Máquinas de madeiros fora de uso, 
          Pera lhe abalroar as caravelas, 
          Que até’li vão lhe fora cometê-las. 

          19 -

          Pela água levará serras de fogo 
          Pera abrasar-lhe quanta armada tenha; 
          Mas a militar arte e engenho logo 
          Fará ser vã a braveza com que venha. 
          - «Nenhum claro barão no Márcio jogo, 
          Que nas asas da Fama se sustenha, 
          Chega a este, que a palma a todos toma. 
          E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma. 

          20 -

          «Porque tantas batalhas, sustentadas 
          Com muito pouco mais de cem soldados, 
          Com tantas manhas e artes inventadas, 
          Tantos Cães não imbeles profligados, 
          Ou parecerão fábulas sonhadas, 
          Ou que os celestes Coros, invocados, 
          Decerão a ajudá-lo e lhe darão 
          Esforço, força, ardil e coração. 

          21 - - ( Milcíades. Leônidas . Cocles. Quinto Fábio. ) 

          «Aquele que nos campos Maratónios 
          O grão poder de Dário estrui e rende, 
          Ou quem, com quatro mil Lacedemónios, 
          O passo de Termópilas defende, 
          Nem o mancebo Cocles dos Ausónios, 
          Que com todo o poder Tusco contende 
          Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio, 
          Foi como este na guerra forte e sábio.» 

          22 - - ( Injustiça da Pátria com Duarte Pacheco. 
                   Belisário. ) 

          Mas neste passo a Ninfa, o som canoro 
          Abaxando, fez ronco e entristecido, 
          Cantando em baxa voz, envolta em choro, 
          O grande esforço mal agardecido. 
          - «Ó Belisário (disse) que no coro 
          Das Musas serás sempre engrandecido, 
          Se em ti viste abatido o bravo Marte, 
          Aqui tens com quem podes consolar-te! 

          23 -

          «Aqui tens companheiro, assi nos feitos 
          Como no galardão injusto e duro; 
          Em ti e nele veremos altos peitos 
          A baxo estado vir, humilde e escuro. 
          Morrer nos hospitais, em pobres leitos, 
          Os que ao Rei e à Lei servem de muro! 
          Isto fazem os Reis cuja vontade 
          Manda mais que a justiça e que a verdade. 

          24 - - ( Injustiça da Pátria com Duarte Pacheco. ) 

          «Isto fazem os Reis quando embebidos 
          Nüa aparência branda que os contenta 
          Dão os prémios, de Aiace merecidos, 
          À língua vã de Ulisses, fraudulenta. 
          Mas vingo-me: que os bens mal repartidos 
          Por quem só doces sombras apresenta, 
          Se não os dão a sábios cavaleiros, 
          Dão-os logo a avarentos lisonjeiros. 

          25 - - ( El rei D. Manuel ) 

          «Mas tu, de quem ficou tão mal pagado 
          Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico, 
          Se não és pera dar-lhe honroso estado, 
          É ele pera dar-te um Reino rico. 
          Enquanto for o mundo rodeado 
          Dos Apolíneos raios, eu te fico 
          Que ele seja entre a gente ilustre e claro, 
          E tu nisto culpado por avaro. 

          26 - - ( Dom francisco de Almeida, 
                   e seu Filho Dom Lourenço ) 

          «Mas eis outro (cantava) intitulado 
          Vem com nome real e traz consigo 
          O filho, que no mar será ilustrado, 
          Tanto como qualquer Romano antigo. 
          Ambos darão com braço forte, armado, 
          A Quíloa fértil, áspero castigo, 
          Fazendo nela Rei leal e humano, 
          Deitado fora o pérfido tirano. 

          27 -

          «Também farão Mombaça, que se arreia 
          De casas sumptuosas e edifícios, 
          Co ferro e fogo seu queimada e feia, 
          Em pago dos passados malefícios. 
          Despois, na costa da Índia, andando cheia 
          De lenhos inimigos e artifícios 
          Contra os Lusos, com velas e com remos 
          O mancebo Lourenço fará extremos. 

          28 -

          «Das grandes naus do Samorim potente, 
          Que encherão todo o mar, co a férrea pela, 
          Que sai com trovão do cobre ardente, 
          Fará pedaços leme, masto, vela. 
          Despois, lançando arpéus ousadamente 
          Na capitaina imiga, dentro nela 
          Saltando o fará só com lança e espada 
          De quatrocentos Mouros despejada. 

          29 - - ( Morte de Dom Lorenço de Almeida. Chaul. ) 

          «Mas de Deus a escondida providência 
          (Que ela só sabe o bem de que se serve) 
          O porá onde esforço nem prudência 
          Poderá haver que a vida lhe reserve. 
          Em Chaúl, onde em sangue e resistência 
          O mar todo com fogo e ferro ferve, 
          Lhe farão que com vida se não saia 
          As armadas de Egipto e de Cambaia. 

          30 - - ( Morte de Dom Lorenço de Almeida. ) 

          «Ali o poder de muitos inimigos 
          (Que o grande esforço só com força rende), 
          Os ventos que faltaram, e os perigos 
          Do mar, que sobejaram, tudo o ofende. 
          Aqui ressurjam todos os Antigos, 
          A ver o nobre ardor que aqui se aprende: 
          Outro Ceva verão, que, espedaçado, 
          Não sabe ser rendido nem domado. 

          31 -

          «Com toda üa coxa fora, que em pedaços 
          Lhe leva um cego tiro que passara, 
          Se serve inda dos animosos braços 
          E do grão coração que lhe ficara. 
          Até que outro pelouro quebra os laços 
          Com que co alma o corpo se liara: 
          Ela, solta, voou da prisão fora 
          Onde súbito se acha vencedora. 

          32 - - ( Dom Francisco de Almeida  
                   vinga a morte do filho )  

          «Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta, 
          Na qual tu mereceste paz serena! 
          Que o corpo, que em pedaços se apresenta, 
          Quem o gerou, vingança já lhe ordena: 
          Que eu ouço retumbar a grão tormenta, 
          Que vem já dar a dura e eterna pena, 
          De esperas, basiliscos e trabucos, 
          A Cambaicos cruéis e Mamelucos. 

          33 -

          «Eis vem o pai, com ânimo estupendo, 
          Trazendo fúria e mágoa por antolhos, 
          Com que o paterno amor lhe está movendo 
          Fogo no coração, água nos olhos. 
          A nobre ira lhe vinha prometendo 
          Que o sangue fará dar pelos giolhos 
          Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo, 
          Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo. 

          34 - - ( Dabul ) 

          «Qual o touro cioso, que se ensaia 
          Pera a crua peleja, os cornos tenta 
          No tronco dum carvalho ou alta faia 
          E, o ar ferindo, as forças experimenta: 
          Tal, antes que no seio de Cambaia 
          Entre Francisco irado, na opulenta 
          Cidade de Dabul a espada afia, 
          Abaxando-lhe a túmida ousadia. 

          35 -

          «E logo, entrando fero na enseada 
          De Dio, ilustre em cercos e batalhas, 
          Fará espalhar a fraca e grande armada 
          De Calecu, que remos tem por malhas. 
          A de Melique Iaz, acautelada, 
          Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas, 
          Fará ir ver o frio e fundo assento, 
          Secreto leito do húmido elemento. 

          36 - - ( Dom Francisco de Almeida ) 

          «Mas a de Mir Hocém, que, abalroando, 
          A fúria esperará dos vingadores, 
          Verá braços e pernas ir nadando 
          Sem corpos, pelo mar, de seus senhores. 
          Raios de fogo irão representando, 
          No cego ardor, os bravos domadores. 
          Quanto ali sentirão olhos e ouvidos 
          É fumo, ferro, flamas e alaridos. 

          37 - - ( Morte de Dom Francisco de Almeida ) 

          «Mas ah, que desta próspera vitória, 
          Com que despois virá ao pátrio Tejo, 
          Quási lhe roubará a famosa glória 
          Um sucesso, que triste e negro vejo! 
          O Cabo Tormentório, que a memória 
          Cos ossos guardará, não terá pejo 
          De tirar deste mundo aquele esprito, 
          Que não tiraram toda a Índia e Egipto. 

          38 -

          «Ali, Cafres selvagens poderão 
          O que destros imigos não puderam; 
          E rudos paus tostados sós farão 
          O que arcos e pelouros não fizeram. 
          Ocultos os juízos de Deus são; 
          As gentes vãs, que não nos entenderam, 
          Chamam-lhe fado mau, fortuna escura, 
          Sendo só providência de Deus pura. 

          39 - - ( Tristão da Cunha ) 

          «Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto 
          (Dizia a Ninfa, e a voz alevantava) 
          Lá no mar de Melinde, em sangue tinto 
          Das cidades de Lamo, de Oja e Brava, 
          Pelo Cunha também, que nunca extinto 
          Será seu nome em todo o mar que lava 
          As ilhas do Austro, e praias que se chamam 
          De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam! 

          40 - - ( Afonso de Albuquerque. Ormuz )

          «Esta luz é do fogo e das luzentes 
          Armas com que Albuquerque irá amansando 
          De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes, 
          Que refusam o jugo honroso e brando. 
          Ali verão as setas estridentes 
          Reciprocar-se, a ponta no ar virando 
          Contra quem as tirou; que Deus peleja 
          Por quem estende a fé da Madre Igreja. 

          41 - - ( Gerum. Mascate. Calaiate. )

          «Ali do sal os montes não defendem 
          De corrupção os corpos no combate, 
          Que mortos pela praia e mar se estendem 
          De Gerum, de Mazcate e Calaiate; 
          Até que à força só de braço aprendem 
          A abaxar a cerviz, onde se lhe ate 
          Obrigação de dar o reino inico 
          Das perlas de Barém tributo rico. 

          42 - - ( Afonso de Albuquerque. Conquista de Goa )

          «Que gloriosas palmas tecer vejo 
          Com que Vitória a fronte lhe coroa, 
          Quando, sem sombra vã de medo ou pejo, 
          Toma a ilha ilustríssima de Goa! 
          Despois, obedecendo ao duro ensejo, 
          A deixa, e ocasião espera boa 
          Com que a torne a tomar, que esforço e arte 
          Vencerão a Fortuna e o próprio Marte. 

          43 -

          «Eis já sobr’ela torna e vai rompendo 
          Por muros, fogo, lanças e pelouros, 
          Abrindo com a espada o espesso e horrendo 
          Esquadrão de Gentios e de Mouros. 
          Irão soldados ínclitos fazendo 
          Mais que liões famélicos e touros, 
          Na luz que sempre celebrada e dina 
          Será da Egípcia Santa Caterina. 

          44 - - ( Malaca )

          «Nem tu menos fugir poderás deste, 
          Posto que rica e posto que assentada 
          Lá no grémio da Aurora, onde naceste, 
          Opulenta Malaca nomeada. 
          As setas venenosas que fizeste, 
          Os crises com que já te vejo armada, 
          Malaios namorados, Jaus valentes, 
          Todos farás ao Luso obedientes.» 

          45 - ( Crueldade de Afonso de Albuquerque )

          Mais estanças cantara esta Sirena 
          Em louvor do ilustríssimo Albuquerque, 
          Mas alembrou-lhe üa ira que o condena, 
          Posto que a fama sua o mundo cerque. 
          O grande Capitão, que o fado ordena 
          Que com trabalhos glória eterna merque, 
          Mais há-de ser um brando companheiro 
          Pera os seus, que juiz cruel e inteiro. 

          46 -

          Mas em tempo que fomes e asperezas, 
          Doenças, frechas e trovões ardentes, 
          A sazão e o lugar, fazem cruezas 
          Nos soldados a tudo obedientes, 
          Parece de selváticas brutezas, 
          De peitos inumanos e insolentes, 
          Dar extremo suplício pela culpa 
          Que a fraca humanidade e Amor desculpa. 

          47 -

          Não será a culpa abominoso incesto 
          Nem violento estupro em virgem pura, 
          Nem menos adultério desonesto, 
          Mas cüa escrava vil, lasciva e escura. 
          Se o peito, ou de cioso, ou de modesto, 
          Ou de usado a crueza fera e dura, 
          Cos seus üa ira insana não refreia, 
          Põe na fama alva noda negra e feia. 

          48 - ( Crueldade de Afonso de Albuquerque )

          Viu Alexandre Apeles namorado 
          Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente, 
          Não sendo seu soldado exprimentado, 
          Nem vendo-se num cerco duro e urgente. 
          Sentiu Ciro que andava já abrasado 
          Araspas, de Panteia, em fogo ardente, 
          Que ele tomara em guarda, e prometia 
          Que nenhum mau desejo o venceria; 

          49 -

          Mas, vendo o ilustre Persa que vencido 
          Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa, 
          Levemente o perdoa, e foi servido 
          Dele num caso grande, em recompensa. 
          Per força, de Judita foi marido 
          O férreo Balduíno; mas dispensa 
          Carlos, pai dela, posto em causas grandes, 
          Que viva e povoador seja de Frandes. 

          50 - - ( Lopo Soares de Albergaria )

          Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto, 
          De Soares cantava, que as bandeiras 
          Faria tremular e pôr espanto 
          Pelas roxas Arábicas ribeiras: 
          - «Medina abominábil teme tanto, 
          Quanto Meca e Gidá, co as derradeiras 
          Praias de Abássia; Barborá se teme 
          Do mal de que o empório Zeila geme. 

          51 - - ( Ceilão )

          «A nobre ilha também de Taprobana, 
          Já pelo nome antigo tão famosa 
          Quanto agora soberba e soberana 
          Pela cortiça cálida, cheirosa, 
          Dela dará tributo à Lusitana 
          Bandeira, quando, excelsa e gloriosa, 
          Vencendo se erguerá na torre erguida, 
          Em Columbo, dos próprios tão temida. 

          52 - - ( Diogo Lopes de Cequeira  )

          «Também Sequeira, as ondas Eritreias 
          Dividindo, abrirá novo caminho 
          Pera ti, grande Império, que te arreias 
          De seres de Candace e Sabá ninho. 
          Maçuá, com cisternas de água cheias 
          Verá, e o porto Arquico, ali vizinho; 
          E fará descobir remotas Ilhas, 
          Que dão ao mundo novas maravilhas. 

          53 - - ( Dom Duarte de Meneses. Vasco da Gama. )

          «Virá despois Meneses, cujo ferro 
          Mais na Africa, que cá, terá provado; 
          Castigará de Ormuz soberba o erro, 
          Com lhe fazer tributo dar dobrado. 
          Também tu, Gama, em pago do desterro 
          Em que estás e serás inda tornado, 
          Cos títulos de Conde e d’honras nobres 
          Virás mandar a terra que descobres. 

          54 - - ( Morte de Vasco da Gama )

          «Mas aquela fatal necessidade 
          De quem ninguém se exime dos humanos, 
          Ilustrado co a Régia dignidade, 
          Te tirará do mundo e seus enganos. 
          Outro Meneses logo, cuja idade 
          É maior na prudência que nos anos, 
          Governará; e fará o ditoso Henrique 
          Que perpétua memória dele fique. 

          55 -

          «Não vencerá somente os Malabares, 
          Destruindo Panane com Coulete, 
          Cometendo as bombardas, que, nos ares, 
          Se vingam só do peito que as comete; 
          Mas com virtudes, certo, singulares, 
          Vence os imigos d’alma todos sete; 
          De cobiça triunfa e incontinência, 
          Que em tal idade é suma de excelência. 

          56 - - ( Dom Pedro de Mascarenhas )

          «Mas, despois que as Estrelas o chamarem, 
          Sucederás, ó forte Mascarenhas; 
          E, se injustos o mando te tomarem, 
          Prometo-te que fama eterna tenhas. 
          Pera teus inimigos confessarem 
          Teu valor alto, o fado quer que venhas 
          A mandar, mais de palmas coroado, 
          Que de fortuna justa acompanhado. 

          57 -

          «No reino de Bintão, que tantos danos 
          Terá a Malaca muito tempo feitos, 
          Num só dia as injúrias de mil anos 
          Vingarás, co valor de ilustres peitos. 
          Trabalhos e perigos inumanos, 
          Abrolhos férreos mil, passos estreitos, 
          Tranqueiras, baluartes, lanças, setas: 
          Tudo fico que rompas e sometas. 

          58 -

          «Mas na Índia, cobiça e ambição, 
          Que claramente põem aberto o rosto 
          Contra Deus e Justiça, te farão 
          Vitupério nenhum, mas só desgosto. 
          Quem faz injúria vil e sem razão, 
          Com forças e poder em que está posto, 
          Não vence; que a vitória verdadeira 
          É saber ter justiça nua e inteira. 

          59 - - ( Lopo Vaz de Sampaio )

          «Mas, contudo, não nego que Sampaio 
          Será, no esforço, ilustre e assinalado, 
          Mostrando-se no mar um fero raio, 
          Que de inimigos mil verá coalhado. 
          Em Bacanor fará cruel ensaio 
          No Malabar, pera que, amedrontado, 
          Despois a ser vencido dele venha 
          Cutiale, com quanta armada tenha. 

          60 - - ( Heitor da Silveira )

          «E não menos de Dio a fera frota, 
          Que Chaúl temerá, de grande e ousada, 
          Fará, co a vista só, perdida e rota, 
          Por Heitor da Silveira e destroçada; 
          Por Heitor Português, de quem se nota 
          Que na costa Cambaica, sempre armada, 
          Será aos Guzarates tanto dano, 
          Quanto já foi aos Gregos o Troiano. 

          61 - - ( Nuno da Cunha )

          «A Sampaio feroz sucederá 
          Cunha, que longo tempo tem o leme: 
          De Chale as torres altas erguerá, 
          Enquanto Dio ilustre dele treme; 
          O forte Baçaim se lhe dará, 
          Não sem sangue, porém, que nele geme 
          Melique, porque à força só de espada 
          A tranqueira soberba vê tomada. 

          62 - - ( Dom Garcia de Noronha.  António da Silveira.
                  Estêvão da Gama. )

          «Trás este vem Noronha, cujo auspício 
          De Dio os Rumes feros afugenta; 
          Dio, que o peito e bélico exercício 
          De António da Silveira bem sustenta. 
          Fará em Noronha a morte o usado ofício, 
          Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta 
          No governo do Império, cujo zelo 
          Com medo o Roxo Mar fará amarelo. 

          63 - - ( Martim Afonso de Sousa  )

          «Das mãos do teu Estêvão vem tomar 
          As rédeas um, que já será ilustrado 
          No Brasil, com vencer e castigar 
          O pirata Francês, ao mar usado. 
          Despois, Capitão-mor do Índico mar, 
          O muro de Damão, soberbo e armado, 
          Escala e primeiro entra a porta aberta, 
          Que fogo e frechas mil terão coberta. 

          64 - - ( Dio )

          «A este o Rei Cambaico soberbíssimo 
          Fortaleza dará na rica Dio, 
          Por que contra o Mogor poderosíssimo 
          Lhe ajude a defender o senhorio. 
          Despois irá com peito esforçadíssimo 
          A tolher que não passe o Rei gentio 
          De Calecu, que assi com quantos veio 
          O fará retirar, de sangue cheio. 

          65 -

          «Destruirá a cidade Repelim, 
          Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida; 
          E despois, junto ao Cabo Comorim, 
          üa façanha faz esclarecida: 
          A frota principal do Samorim, 
          Que destruir o mundo não duvida, 
          Vencerá co furor do ferro e fogo; 
          Em si verá Beadala o Márcio jogo. 

          66 - - ( Martim Afonso de Sousa  )

          «Tendo assi limpa a Índia dos imigos, 
          Virá despois com ceptro a governá-Ia 
          Sem que ache resistência nem perigos, 
          Que todos tremem dele e nenhum fala. 
          Só quis provar os ásperos castigos 
          Baticalá, que vira já Beadala. 
          De sangue e corpos mortos ficou cheia 
          E de fogo e trovões desfeita e feia. 

          67 - - ( Dom João de Castro  )

          «Este será Martinho, que de Marte 
          O nome tem co as obras derivado; 
          Tanto em armas ilustre em toda parte, 
          Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado. 
          Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte 
          Português terá sempre levantado, 
          Conforme sucessor ao sucedido, 
          Que um ergue Dio, outro o defende erguido. 

          68 -

          «Persas feroces, Abassis e Rumes, 
          Que trazido de Roma o nome têm, 
          Vários de gestos, vários de costumes 
          (Que mil nações ao cerco feras vêm), 
          Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes 
          Porque uns poucos a terra lhe detêm. 
          Em sangue Português, juram, descridos, 
          De banhar os bigodes retorcidos. 

          69 - - ( Dom João de Mascarenhas 
                  e Dom João de Castro. )

          «Basiliscos medonhos e liões, 
          Trabucos feros, minas encobertas, 
          Sustenta Mascarenhas cos barões 
          Que tão ledos as mortes têm por certas; 
          Até que, nas maiores opressões, 
          Castro libertador, fazendo ofertas 
          Das vidas de seus filhos, quer que fiquem 
          Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem. 

          70 - - ( Dom Fernando de Castro
                  e Dom Álvaro de Castro. )

          «Fernando, um deles, ramo da alta pranta, 
          Onde o violento fogo, com ruido, 
          Em pedaços os muros no ar levanta, 
          Será ali arrebatado e ao Céu subido. 
          Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta 
          E tem o caminho húmido impedido, 
          Abrindo-o, vence as ondas e os perigos, 
          Os ventos e despois os inimigos. 

          71 - - ( Dom João de Castro.  )

          «Eis vem despois o pai, que as ondas corta 
          Co restante da gente Lusitana, 
          E com força e saber, que mais importa, 
          Batalha dá felice e soberana. 
          Uns, paredes subindo, escusam porta; 
          Outros a abrem na fera esquadra insana. 
          Feitos farão tão dinos de memória 
          Que não caibam em verso ou larga história. 

          72 -

          «Este, despois, em campo se apresenta, 
          Vencedor forte e intrépido, ao possante 
          Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta 
          Da fera multidão quadrupedante. 
          Não menos suas terras mal sustenta 
          O Hidalcão, do braço triunfante 
          Que castigando vai Dabul na costa; 
          Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta. 

          73 - - ( Conclui a Ninfa o Canto em louvor
                  aos Heróis do Oriente )

          «Estes e outros Barões, por várias partes, 
          Dinos todos de fama e maravilha, 
          Fazendo-se na terra bravos Martes, 
          Virão lograr os gostos desta Ilha, 
          Varrendo triunfantes estandartes 
          Pelas ondas que corta a aguda quilha; 
          E acharão estas Ninfas e estas mesas, 
          Que glórias e honras são de árduas empresas.» 

          74 -

          Assi cantava a Ninfa; e as outras todas, 
          Com sonoroso aplauso, vozes davam, 
          Com que festejam as alegres vodas 
          Que com tanto prazer se celebravam. 
          - «Por mais que da Fortuna andem as rodas 
          (Nüa cônsona voz todas soavam), 
          Não vos hão-de faltar, gente famosa, 
          Honra, valor e fama gloriosa.» 

          75 -

          Despois que a corporal necessidade 
          Se satisfez do mantimento nobre, 
          E na harmonia e doce suavidade 
          Viram os altos feitos que descobre, 
          Tétis, de graça ornada e gravidade, 
          Pera que com mais alta glória dobre 
          As festas deste alegre e claro dia, 
          Pera o felice Gama assi dizia: 

          76 - - ( Fala de Tethys ao Gama  )

          - «Faz-te mercê, barão, a Sapiência 
          Suprema de, cos olhos corporais, 
          Veres o que não pode a vã ciência 
          Dos errados e míseros mortais. 
          Sigue-me firme e forte, com prudência, 
          Por este monte espesso, tu cos mais.» 
          Assi lhe diz e o guia por um mato 
          Árduo, difícil, duro a humano trato. 

          77 - - ( A Esfera Celeste  )

          Não andam muito que no erguido cume 
          Se acharam, onde um campo se esmaltava 
          De esmeraldas, rubis, tais que presume 
          A vista que divino chão pisava. 
          Aqui um globo vêm no ar, que o lume 
          Claríssimo por ele penetrava, 
          De modo que o seu centro está evidente, 
          Como a sua superfícia, claramente. 

          78 - - ( Cosmografia de Ptolomeu )

          Qual a matéria seja não se enxerga, 
          Mas enxerga-se bem que está composto 
          De vários orbes, que a Divina verga 
          Compôs, e um centro a todos só tem posto. 
          Volvendo, ora se abaxe, agora se erga, 
          Nunca s’ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto 
          Por toda a parte tem; e em toda a parte 
          Começa e acaba, enfim, por divina arte, 

          79 - - ( A Máquina do Mundo ) 

          Uniforme, perfeito, em si sustido, 
          Qual, enfim, o Arquetipo que o criou. 
          Vendo o Gama este globo, comovido 
          De espanto e de desejo ali ficou. 
          Diz-lhe a Deusa: - «O transunto, reduzido 
          Em pequeno volume, aqui te dou 
          Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas 
          Por onde vás e irás e o que desejas. 

          80 -

          «Vês aqui a grande máquina do Mundo, 
          Etérea e elemental, que fabricada 
          Assi foi do Saber, alto e profundo, 
          Que é sem princípio e meta limitada. 
          Quem cerca em derredor este rotundo 
          Globo e sua superfícia tão limada, 
          É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende, 
          Que a tanto o engenho humano não se estende. 
           

          81 - - ( O Empíreo )

          «Este orbe que, primeiro, vai cercando 
          Os outros mais pequenos que em si tem, 
          Que está com luz tão clara radiando 
          Que a vista cega e a mente vil também, 
          Empíreo se nomeia, onde logrando
          Puras almas estão daquele Bem 
          Tamanho, que ele só se entende e alcança, 
          De quem não há no mundo semelhança.

          82 - - ( O que são os deuses mitológicos )

          «Aqui, só verdadeiros, gloriosos 
          Divos estão, porque eu, Saturno e Jano, 
          Júpiter, Juno, fomos fabulosos, 
          Fingidos de mortal e cego engano. 
          Só pera fazer versos deleitosos 
          Servimos; e, se mais o trato humano
          Nos pode dar, é só que o nome nosso 
          Nestas estrelas pôs o engenho vosso.

          83 -

          «E também, porque a santa Providência, 
          Que em Júpiter aqui se representa, 
          Por espíritos mil que têm prudência 
          Governa o Mundo todo que sustenta 
          (Ensina-lo a profética ciência, 
          Em muitos dos exemplos que apresenta); 
          Os que são bons, guiando, favorecem, 
          Os maus, em quanto podem, nos empecem;

          84 -

          «Quer logo aqui a pintura que varia 
          Agora deleitando, ora ensinando, 
          Dar-lhe nomes que a antiga Poesia 
          A seus Deuses já dera, fabulando; 
          Que os Anjos de celeste companhia 
          Deuses o sacro verso está chamando, 
          Nem nega que esse nome preminente 
          Também aos maus se dá, mas falsamente.

          85 - - ( O Primeiro Móbile )

          «Enfim que o Sumo Deus, que por segundas 
          Causas obra no Mundo, tudo manda. 
          E tornando a contar-te das profundas 
          Obras da Mão Divina veneranda, 
          Debaxo deste círculo onde as mundas 
          Almas divinas gozam, que não anda, 
          Outro corre, tão leve e tão ligeiro 
          Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.

          86 - - ( O Cristalino )

          «Com este rapto e grande movimento 
          Vão todos os que dentro tem no seio; 
          Por obra deste, o Sol, andando a tento, 
          O dia e noite faz, com curso alheio. 
          Debaxo deste leve, anda outro lento, 
          Tão lento e sojugado a duro freio, 
          Que enquanto Febo, de luz nunca escasso, 
          Duzentos cursos faz, dá ele um passo.

          87 - - ( O Firmamento. O Zodíaco e os doze Signos )

          «Olha estoutro debaxo, que esmaltado 
          De corpos lisos anda e radiantes, 
          Que também nele tem curso ordenado 
          E nos seus axes correm cintilantes. 
          Bem vês como se veste e faz ornado 
          Co largo Cinto d, ouro, que estelantes 
          Animais doze traz afigurados, 
          Apousentos de Febo limitados.

          88 - - ( as Constelações )

          «Olha por outras partes a pintura 
          Que as Estrelas fulgentes vão fazendo: 
          Olha a Carreta, atenta a Cinosura, 
          Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo; 
          Vê de Cassiopeia a fermosura
          E do Orionte o gesto turbulento; 
          Olha o Cisne morrendo que suspira, 
          A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.

          89 - - ( Os Planetas  )

          «Debaxo deste grande Firmamento, 
          Vês o céu de Saturno, Deus antigo; 
          Júpiter logo faz o movimento, 
          E Marte abaxo, bélico inimigo; 
          O claro Olho do céu, no quarto assento,
          E Vénus, que os amores traz consigo; 
          Mercúrio, de eloquência soberana; 
          Com três rostos, debaxo vai Diana.

          90 - - ( Os Quatro Elementos )

          «Em todos estes orbes, diferente 
          Curso verás, nuns grave e noutros leve; 
          Ora fogem do Centro longamente, 
          Ora da Terra estão caminho breve, 
          Bem como quis o Padre omnipotente, 
          Que o fogo fez e o ar, o vento e neve, 
          Os quais verás que jazem mais a dentro 
          E tem co Mar a Terra por seu centro.

          91 - - ( A Terra  )

          «Neste centro, pousada dos humanos, 
          Que não somente, ousados, se contentam 
          De sofrerem da terra firme os danos, 
          Mas inda o mar instábil exprimentam, 
          Verás as várias partes, que os insanos 
          Mares dividem, onde se apousentam 
          Várias nações que mandam vários Reis, 
          Vários costumes seus e várias leis. 

          92 - - ( Europa e África )

          «Vês Europa Cristã, mais alta e clara 
          Que as outras em polícia e fortaleza. 
          Vês África, dos bens do mundo avara, 
          Inculta e toda cheia de bruteza; 
          Co Cabo que até’aqui se vos negara, 
          Que assentou pera o Austro a Natureza. 
          Olha essa terra toda, que se habita 
          Dessa gente sem Lei, quási infinita.

          93 - - ( Benomotapa )

          «Vê do Benomotapa o grande império, 
          De selvática gente, negra e nua, 
          Onde Gonçalo morte e vitupério 
          Padecerá, pola Fé santa sua. 
          Nace por este incógnito Hemispério 
          O metal por que mais a gente sua. 
          Vê que do lago donde se derrama 
          O Nilo, também vindo está Cuama.

          94 - - ( Pero de Nhaia, defensor de Sofala )

          «Olha as casas dos negros, como estão 
          Sem portas, confiados, em seus ninhos, 
          Na justiça real e defensão 
          E na fidelidade dos vizinhos; 
          Olha deles a bruta multidão, 
          Qual bando espesso e negro de estorninhos, 
          Combaterá em Sofala a fortaleza, Que 
          defenderá Nhaia com destreza.

          95 - - ( As nascentes o Nilo. Abissínia Nobá. )

          «Olha lá as alagoas donde o Nilo 
          Nace, que não souberam os antigos; 
          Vê-lo rega, gerando o crocodilo, 
          Os povos Abassis, de Crista amigos; 
          Olha como sem muros (novo estilo) 
          Se defendem milhor dos inimigos; 
          Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama, 
          Que ora dos naturais Nobá se chama. 

          96 - - ( Dom Cristóvão da Gama. Melinde.  )

          «Nesta remota terra um filho teu 
          Nas armas contra os Turcos será claro; 
          Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu; 
          Mas contra o fim fatal não há reparo. 
          Vê cá a costa do mar, onde te deu 
          Melinde hospício gasalhoso e caro; 
          O Rapto rio nota, que o romance
          Da terra chama Obi; entra em Quilmance.

          97 - - ( Cabo Guardafui. O mar Vermelho.  )

          «O Cabo vê já Arómata chamado, 
          E agora Guardafú, dos moradores, 
          Onde começa a boca do afamado 
          Mar Roxo, que do fundo toma as cores; 
          Este como limite está lançado 
          Que divide Asia de Africa; e as milhores 
          Povoações que a parte Africa tem 
          Maçuá são, Arquico e Suaquém.

          98 - - ( Suez )

          «Vês o extremo Suez, que antigamente 
          Dizem que foi dos Héroas a cidade 
          (Outros dizem que Arsínoe), e ao presente 
          Tem das frotas do Egipto a potestade. 
          Olha as águas nas quais abriu patente 
          Estrada o grão Mousés na antiga idade. 
          Ásia começa aqui, que se apresenta 
          Em terras grande, em reinos opulenta.

          99 - - ( Sinai. Toro e Gidá. Bab-el-Mandeb. 
                  Ádem. Arzira (Jebeljafa) )

          «Olha o monte Sinai, que se ennobrece 
          Co sepulcro de Santa Caterina; 
          Olha Toro e Gidá, que lhe falece 
          Água das fontes, doce e cristalina; 
          Olha as portas do Estreito, que fenece 
          No reino da seca Ádem, que confina 
          Com a serra d’Arzira, pedra viva, 
          Onde chuva dos céus se não deriva. 

          100 - - ( As três Arábias. estreito de Ormuz.
                  Cabo Fartaque )

          «Olha as Arábias três, que tanta terra 
          Tomam, todas da gente vaga e baça, 
          Donde vêm os cavalos pera a guerra, 
          Ligeiros e feroces, de alta raça; 
          Olha a costa que corrre, até que cera 
          Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça 
          O Cabo que co nome se apelida 
          Da cidade Fartaque, ali sabida.

          101 - - ( Dófar. Roçalgate. Ormuz. 
                  Dom Pedro de Castel-Branco )

          «Olha Dófar, insigne porque manda 
          O mais cheiroso incenso pera as aras;
          Mas atenta: já cá destoutra banda 
          De Roçalgate, e praias sempre avaras, 
          Começa o reino Ormuz, que todo se anda 
          Pelas ribeiras que inda serão claras 
          Quando as galés do Turco e fera armada 
          Virem de Castelbranco nua a espada.

          102 - - ( Cabo Moçandão. Ilha Barém. 
                  Os rios Tigre e Eufrates )

          «Olha o Cabo Asaboro, que chamado 
          Agora é Moçandão, dos navegantes; 
          Por aqui entra o lago que é fechado 
          De Arábia e Pérsias terras abundantes. 
          Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado 
          Tem das suas perlas ricas, e imitantes 
          A cor da Aurora; e vê na água salgada 
          Ter o Tígris e Eufrates üa entrada.

          103 - - ( Pérsia. Ilha Gerum. Armuza (Ormuz)  )

          «Olha da grande Pérsia o império nobre, 
          Sempre posto no campo e nos cavalos, 
          Que se injuria de usar fundido cobre 
          E de não ter das armas sempre os calos. 
          Mas vê a ilha Gerum, como descobre 
          O que fazem do tempo os intervalos, 
          Que da cidade Armuza, que ali esteve,
          Ela o nome despois e a glória teve. 

          104 - - ( Dom Filipe de Meneses 
                  e Dom Pedro de Sousa )

          «Aqui de Dom Filipe de Meneses
          Se mostrará a virtude, em armas clara, 
          Quando, com muito poucos Portugueses, 
          Os muitos Párseos vencerá de Lara. 
          Virão provar os golpes e reveses 
          De Dom Pedro de Sousa, que provara 
          Já seu braço em Ampaza, que deixada 
          Terá por terra, à força só de espada.

          105 - - ( O Cabo Jasque. Carmánia. 
                  Os rios Indo e Ganges )

          «Mas deixemos o Estreito e o conhecido
          Cabo de Jasque, dito já Carpela,
          Com todo o seu terreno mal querido
          Da Natura e dos dões usados dela;
          Carmânia teve já por apelido.
          Mas vês o fermoso Indo, que daquela
          Altura nace, junto à qual, também
          Doutra altura correndo o Gange vem?

          106 - - ( Ulcinde. Jáquete. Cambaia )

          «OIha a terra de Ulcinde, fertilíssima, 
          E de Jáquete a íntima enseada; 
          Do mar a enchente súbita, grandíssima, 
          E a vazante, que foge apressurada. 
          A terra de Cambaia vê, riquíssima, 
          Onde do mar o seio faz entrada; 
          Cidades outras mil, que vou passando, 
          A vós outros aqui se estão guardando.

          107 - - ( Cabo Comorim. Ceilão  )

          «Vês corre a costa célebre Indiana 
          Pera o Sul, até o Cabo Comori, 
          Já chamado Cori, que Taprobana
          (Que ora é Ceilão) defronte tem de si.
          Por este mar a gente Lusitana, 
          Que com armas virá despois de ti, 
          Terá vitórias, terras e cidades, 
          Nas quais hão-de viver muitas idades.

          108 - - ( Narsinga )

          «As províncias que entre um e o outro rio 
          Vês, com várias nações, são infinitas: 
          Um reino Mahometa, outro Gentio, 
          A quem tem o Demónio leis escritas.
          Olha que de Narsinga o senhorio 
          Tem as relíquias santas e benditas 
          Do corpo de Tomé, barão sagrado, 
          Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.

          109 - - ( Meliapor   São Tomé. )

          «Aqui a cidade foi que se chamava 
          Meliapor, fermosa, grande e rica; 
          Os Ídolos antigos adorava
          Como inda agora faz a gente inica. 
          Longe do mar naquele tempo estava, 
          Quando a Fé, que no mundo se pubrica, 
          Tomé vinha prègando, e já passara 
          Províncias mil do mundo, que ensinara.

          110 -

          «Chegado aqui, pregando e junto dando 
          A doentes saúde, a mortos vida, 
          Acaso traz um dia o mar, vagando, 
          Um lenho de grandeza desmedida. 
          Deseja o Rei, que andava edificando, 
          Fazer dele madeira; e não duvida 
          Poder tirá-lo a terra, com possantes 
          Forças d’ homens, de engenhos, de alifantes.

          111 -

          «Era tão grande o peso do madeiro 
          Que, só pera abalar-se, nada abasta; 
          Mas o núncio de Cristo verdadeiro 
          Menos trabalho em tal negócio gasta: 
          Ata o cordão que traz, por derradeiro,
          No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta 
          Pera onde faça um sumptuoso templo 
          Que ficasse aos futuros por exemplo.

          112 -

          «Sabia bem que se com fé formada 
          Mandar a um monte surdo que se mova, 
          Que obedecerá logo à voz sagrada, 
          Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova. 
          A gente ficou disto alvoraçada; 
          Os Brâmenes o têm por cousa nova; 
          Vendo os milagres, vendo a santidade, 
          Hão medo de perder autoridade.

          113 -

          «São estes sacerdotes dos Gentios 
          Em quem mais penetrado tinha enveja; 
          Buscam maneiras mil, buscam desvios, 
          Com que Tomé não se ouça, ou morto seja. 
          O principal, que ao peito traz os fios, 
          Um caso horrendo faz, que o mundo veja 
          Que inimiga não há, tão dura e fera, 
          Como a virtude falsa, da sincera.

          114 - - ( São Tomé )

          «Um filho próprio mata, e logo acusa 
          De homicídio Tomé, que era inocente; 
          Dá falsas testemunhas, como se usa; 
          Condenaram-no a morte brevemente. 
          O Santo, que não vê milhor escusa 
          Que apelar pera o Padre omnipotente, 
          Quer, diante do Rei e dos senhores, 
          Que se faça um milagre dos maiores.

          115 -

          «O corpo morto manda ser trazido, 
          Que res[s]ucite e seja perguntado 
          Quem foi seu matador, e será crido 
          Por testemunho, o seu, mais aprovado. 
          Viram todos o moço vivo, erguido, 
          Em nome de Jesu crucificado:
          Dá graças a Tomé, que lhe deu vida, 
          E descobre seu pai ser homicida.

          116 -

          «Este milagre fez tamanho espanto
          Que o Rei se banha logo na água santa, 
          E muitos após ele; um beija o manto, 
          Outro louvor do Deus de Tomé canta.
          Os Brâmenes se encheram de ódio tanto, 
          Com seu veneno os morde enveja tanta, 
          Que, persuadindo a isso o povo rudo, 
          Determinam matá-lo, em fim de tudo.

          117 - - ( Martírio de São Tomé )

          «Um dia que pregando ao povo estava, 
          Fingiram entre a gente um arruído. 
          (Já Cristo neste tempo lhe ordenava 
          Que, padecendo, fosse ao Céu subido); 
          A multidão das pedras que voava 
          No Santo dá, já a tudo oferecido; 
          Um dos maus, por fartar-se mais depressa, 
          Com crua lança o peito lhe atravessa.

          118 -

          «Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo; 
          Chorou-te toda a terra que pisaste; 
          Mais te choram as almas que vestindo 
          Se iam da santa Fé que lhe ensinaste. 
          Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo, 
          Te recebem na glória que ganhaste. 
          Pedimos-te que a Deus ajuda peças 
          Com que os teus Lusitanos favoreças.

          119 -

          «E vós outros que os nomes usurpais 
          De mandados de Deus, como Tomé, 
          Dizei: se sois mandados, como estais 
          Sem irdes a pregar a santa Fé? 
          Olhai que, se sois Sal e vos danais 
          Na pátria, onde profeta ninguém é, 
          Com que se salgarão em nossos dias 
          (Infiéis deixo) tantas heresias?

          120 - - ( Golfo de Bengala. Narsinga. Orixa  )

          «Mas passo esta matéria perigosa 
          E tornemos à costa debuxada. 
          Já com esta cidade tão famosa 
          Se faz curva a Gangética enseada; 
          Corre Narsinga, rica e poderosa; 
          Corre Orixa, de roupas abastada; 
          No fundo da enseada, o ilustre rio 
          Ganges vem ao salgado senhorio;

          121 - - ( Banhos Sagrados. Satigão )

          «Ganges, no qual os seus habitadores 
          Morrem banhados, tendo por certeza 
          Que, inda que sejam grandes pecadores, 
          Esta água santa os lava e dá pureza. 
          Vê Catigão, cidade das milhores 
          De Bengala província, que se preza 
          De abundante. Mas olha que está posta 
          Pera o Austro, daqui virada, a costa.

          122 - - ( Arracão. Pegu )

          «Olha o reino Arracão; olha o assento
          De Pegu, que já monstros povoaram, 
          Monstros filhos do feio ajuntamento 
          Düa mulher e um cão, que sós se acharam. 
          Aqui soante arame no instrumento
          Da geração costumam, o que usaram 
          Por manha da Rainha que, inventando 
          Tal uso, deitou fora o error nefando.

          123 - - ( Tavai. Tenassari. Quedá. Malaca )

          «Olha Tavai cidade, onde começa
          De Sião largo o império tão comprido; 
          Tenassari, Quedá, que é só cabeça 
          Das que pimenta ali têm produzido. 
          Mais avante fareis que se conheça 
          Malaca por empório ennobrecido,
          Onde toda a província do mar grande 
          Suas mercadorias ricas mande. 

          124 - - ( Samatra )

          «Dizem que desta terra co as possantes 
          Ondas o mar, entrando, dividiu 
          A nobre ilha Samatra, que já d’antes 
          Juntas ambas a gente antiga viu. 
          Quersoneso foi dita; e das prestantes 
          Veias d’ouro que a terra produziu, 
          'Aurea', por epitéto lhe ajuntaram; 
          Alguns que fosse Ofir imaginaram.

          125 - - ( Singapura. Pam. Patane. Sião. Rio Menão )

          «Mas, na ponta da terra, Cingapura 
          Verás, onde o caminho às naus se estreita; 
          Daqui tornando a costa à Cinosura,
          Se encurva e pera a Aurora se endireita. 
          Vês Pam, Patane, reinos, e a longura 
          De Sião, que estes e outros mais sujeita; 
          Olha o rio Menão, que se derrama 
          Do grande lago que Chiamai se chama.

          126 - - ( Laos. Avás. Bramás. Gueos )

          Vês neste grão terreno os diferentes 
          Nomes de mil nações, nunca sabidas: 
          Os Laos, em terra e número potentes; 
          Avás, Bramás, por serras tão compridas; 
          Vê nos remotos montes outras gentes, 
          Que Gueos se chamam, de selvages vidas; 
          Humana carne comem, mas a sua
          Pintam com ferro ardente, usança crua.

          127 - - ( Camboja. Rio Mecom )

          «Vês, passa por Camboja Mecom rio, 
          Que capitão das águas se interpreta; 
          Tantas recebe d’ outro só no Estio, 
          Que alaga os campos largos e inquieta; 
          Tem as enchentes quais o Nilo frio;
          A gente dele crê, como indiscreta, 
          Que pena e glória têm, despois de morte,
          Os brutos animais de toda sorte. 

          128 - - ( Naufrágio de Camões.  Salvamento
                     do manuscrito d'Os Lusíadas)

          «Este receberá, plácido e brando, 
          No seu regaço os Cantos que molhados 
          Vêm do naufrágio triste e miserando, 
          Dos procelosos baxos escapados, 
          Das fomes, dos perigos grandes, quando 
          Será o injusto mando executado 
          Naquele cuja Lira sonorosa 
          Será mais afamada que ditosa.

          129 - - ( Champá.  Conchinchina. Ainão. China )

          «Vês, corre a costa que Champá se chama, 
          Cuja mata é do pau cheiroso ornada; 
          Vês Cauchichina está, de escura fama, 
          E de Ainão vê a incógnita enseada; 
          Aqui o soberbo Império, que se afama 
          Com terras e riqueza não cuidada, 
          Da China corre, e ocupa o senhorio 
          Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.

          130 - - ( A Muralha da China  )

          «Olha o muro e edifício nunca crido, 
          Que entre um império e o outro se edifica, 
          Certíssimo sinal, e conhecido, 
          Da potência real, soberba e rica. 
          Estes, o Rei que têm, não foi nacido 
          Príncipe, nem dos pais aos filhos fica, 
          Mas elegem aquele que é famoso 
          Por cavaleiro, sábio e virtuoso.

          131 - - ( O Japão )

          «Inda outra muita terra se te esconde 
          Até que venha o tempo de mostrar-se; 
          Mas não deixes no mar as Ilhas onde 
          A Natureza quis mais afamar-se: 
          Esta, meia escondida, que responde 
          De longe à China, donde vem buscar-se, 
          É Japão, onde nace a prata fina, 
          Que ilustrada será co a Lei divina.

          132 - - ( Tidore. Ternate )

          «Olha cá pelos mares do Oriente 
          Ás infinitas Ilhas espalhadas:
          Vê Tidore e Ternate, co fervente
          Cume, que lança as flamas ondeadas. 
          As árvores verás do cravo ardente,
          Co sangue Português inda compradas. 
          Aqui há as áureas aves, que não decem 
          Nunca à terra e só mortas aparecem.

          133 - - ( Ilhas de Banda Bornéu )

          «Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam 
          Da vária cor que pinta o roxo fruto;
          Às aves variadas, que ali saltam,
          Da verde noz tomando seu tributo.
          Olha também Bornéu, onde não faltam 
          Lágrimas no licor coalhado e enxuto 
          Das árvores, que cânfora é chamado, 
          Com que da Ilha o nome é celebrado.

          134 - - ( Arquipélago de Sonda (Samatra, Java e Timor) )

          «Ali também Timor, que o lenho manda 
          Sândalo, salutífero e cheiroso;
          Olha a Sunda, tão larga que üa banda 
          Esconde pera o Sul dificultoso;
          A gente do Sertão, que as terras anda, 
          Um rio diz que tem miraculoso,
          Que, por onde ele só, sem outro, vai,
          Converte em pedra o pau que nele cai.

          135 - - ( Java )

          «Vê naquela que o tempo tornou Ilha, 
          Que também flamas trémulas vapora,
          A fonte que óleo mana, e a maravilha 
          Do cheiroso licor que o tronco chora, 
          - Cheiroso, mais que quanto estila a filha 
          De Ciniras na Arábia, onde ela mora;
          E vê que, tendo quanto as outras têm,
          Branda seda e fino ouro dá também. 

          136 - - ( Ceilão. O Pico de Adão. 
                  Arquipélago das Maldivas )

          «Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta 
          Tanto que as nuvens passa ou a vista engana; 
          Os naturais o têm por cousa santa,
          Pola pedra onde está a pegada humana. 
          Nas ilhas de Maldiva nace a pranta 
          No profundo das águas, soberana, 
          Cujo pomo contra o veneno urgente
          É tido por antídoto excelente.

          137 - - ( Socotorá. Ilha de São Lourenço (Madagáscar) )

          «Verás defronte estar do Roxo Estreito 
          Socotorá, co amaro aloé famosa; 
          Outras ilhas, no mar também sujeito 
          A vós, na costa de África arenosa, 
          Onde sai do cheiro mais perfeito 
          A massa, ao mundo oculta e preciosa. 
          De São Lourenço vê a Ilha afamada, 
          Que Madagáscar é dalguns chamada.

          138 - - ( Fernão de Magalhães )

          «Eis aqui as novas partes do Oriente 
          Que vós outros agora ao mundo dais, 
          Abrindo a porta ao vasto mar patente, 
          Que com tão forte peito navegais. 
          Mas é também razão que, no Ponente, 
          Dum Lusitano um feito inda vejais, 
          Que, de seu Rei mostrando-se agravado, 
          Caminho há-de fazer nunca cuidado.

          139 - - ( A América )

          «Vedes a grande terra que contina 
          Vai de Calisto ao seu contrário Pólo, 
          Que soberba a fará a luzente mina 
          Do metal que a cor tem do louro Apolo. 
          Castela, vossa amiga, será dina 
          De lançar-lhe o colar ao rudo colo. 
          Varias províncias tem de várias gentes, 
          Em ritos e costumes, diferentes.

          140 - - ( O Brasil (Terra de Santa Cruz) )

          «Mas cá onde mais se alarga, ali tereis 
          Parte também, co pau vermelho nota; 
          De Santa Cruz o nome lhe poreis; 
          Descobri-la-á a primeira vossa frota.
          Ao longo desta costa, que tereis, 
          Irá buscando a parte mais remota 
          O Magalhães, no feito, com verdade, 
          Português, porém não na lealdade.

          141 - - ( Patagônia. Estreito de Magalhães )

          «Dês que passar a via mais que meia
          Que ao Antártico Pólo vai da Linha,
          Düa estatura quási giganteia
          Homens verá, da terra ali vizinha;
          E mais avante o Estreito que se arreia
          Co nome dele agora, o qual caminha
          Pera outro mar e terra que fica onde
          Com suas frias asas o Austro a esconde.

          142 - - ( Termina Tethys os seus vaticínios )

          «Até’aqui Portugueses concedido
          Vos é saberdes os futuros feitos
          Que, pelo mar que já deixais sabido,
          Virão fazer barões de fortes peitos.
          Agora, pois que tendes aprendido
          Trabalhos que vos façam ser aceitos
          As eternas esposas e fermosas,
          Que coroas vos tecem gloriosas,

          143 - - ( Partida da Ilha dos Amores  )

          «Podeis-vos embarcar, que tendes vento 
          E mar tranquilo, pera a pátria amada.» 
          Assi lhe disse; e logo movimento 
          Fazem da Ilha alegre e namorada. 
          Levam refresco e nobre mantimento; 
          Levam a companhia desejada 
          Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
          Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.

          144 - - ( Regressam os nautas a Portugal )

          Assi foram cortando o mar sereno, 
          Com vento sempre manso e nunca irado, 
          Até que houveram vista do terreno 
          Em que naceram, sempre desejado. 
          Entraram pela foz do Tejo ameno, 
          E à sua pátria e Rei temido e amado
          O prémio e glória dão por que mandou, 
          E com títulos novos se ilustrou.

          145 - - ( Desalento do Poeta. Censuras `a Pátria  )

          Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho 
          Destemperada e a voz enrouquecida, 
          E não do canto, mas de ver que venho 
          Cantar a gente surda e endurecida. 
          O favor com que mais se acende o engenho 
          Não no dá a pátria, não, que está metida 
          No gosto da cobiça e na rudeza 
          Düa austera, apagada e vil tristeza.

          146 - - ( Conselhos ao Rei Dom Sebastião )

          E não sei por que influxo de Destino 
          Não tem um ledo orgulho e geral gosto, 
          Que os ânimos levanta de contino 
          A ter pera trabalhos ledo o rosto.
          Por isso vós, ó Rei, que por divino 
          Conselho estais no régio sólio posto, 
          Olhai que sois (e vede as outras gentes) 
          Senhor só de vassalos excelentes.

          147 - - ( O heroísmo português  )

          Olhai que ledos vão, por várias vias, 
          Quais rompentes liões e bravos touros, 
          Dando os corpos a fomes e vigias, 
          A ferro, a fogo, a setas e pelouros, 
          A quentes regiões, a plagas frias, 
          A golpes de Idolátras e de Mouros, 
          A perigos incógnitos do mundo, 
          A naufrágios, a pexes, ao profundo.

          148 -

          Por vos servir, a tudo aparelhados; 
          De vós tão longe, sempre obedientes; 
          A quaisquer vossos ásperos mandados, 
          Sem dar reposta, prontos e contentes. 
          Só com saber que são de vós olhados, 
          Demónios infernais, negros e ardentes, 
          Cometerão convosco, e não duvido 
          Que vencedor vos façam, não vencido.

          149 - - ( Benignidade e justiça )

          Favorecei-os logo, e alegrai-os 
          Com a presença e leda humanidade; 
          De rigorosas leis desalivai-os, 
          Que assi se abre o caminho à santidade. 
          Os mais exprimentados levantai-os, 
          Se, com a experiência, têm bondade 
          Pera vosso conselho, pois que sabem 
          O como, o quando, e onde as cousas cabem.

          150 - - ( Os religiosos  )

          Todos favorecei em seus ofícios, 
          Segundo têm das vidas o talento; 
          Tenham Religiosos exercícios 
          De rogarem, por vosso regimento, 
          Com jejuns, disciplina, pelos vícios 
          Comuns; toda ambição terão por vento, 
          Que o bom Religioso verdadeiro 
          Glória vã não pretende nem dinheiro.

          151 - - ( Os cavaleiros  )

          Os Cavaleiros tende em muita estima,
          Pois com seu sangue intrépido e fervente
          Estendem não sòmente a Lei de cima,
          Mas inda vosso Império preminente.
          Pois aqueles que a tão remoto clima
          Vos vão servir, com passo diligente,
          Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
          E (o que é mais) os trabalhos excessivos.

          152 - - ( A experiência )

          Fazei, Senhor, que nunca os admirados 
          Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses, 
          Possam dizer que são pera mandados, 
          Mais que pera mandar, os Portugueses. 
          Tomai conselho só d’exprimentados 
          Que viram largos anos, largos meses, 
          Que, posto que em cientes muito cabe. 
          Mais em particular o experto sabe.

          153 - - ( Formião e Aníbal )

          De Formião, filósofo elegante, 
          Vereis como Anibal escarnecia, 
          Quando das artes bélicas, diante 
          Dele, com larga voz tratava e lia. 
          A disciplina militar prestante 
          Não se aprende, Senhor, na fantasia, 
          Sonhando, imaginando ou estudando, 
          Senão vendo, tratando e pelejando.

          154 - - ( Humildade do Poeta )

          Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo, 
          De vós não conhecido nem sonhado? 
          Da boca dos pequenos sei, contudo, 
          Que o louvor sai às vezes acabado. 
          Tem me falta na vida honesto estudo, 
          Com longa experiência misturado, 
          Nem engenho, que aqui vereis presente, 
          Cousas que juntas se acham raramente.

          155 - - ( " Para servir - vos, braço às armas feito " )

          Pera servir-vos, braço às armas feito,
          Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
          Só me falece ser a vós aceito,
          De quem virtude deve ser prezada.
          Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
          Dina empresa tomar de ser cantada,
          Como a pres[s]aga mente vaticina
          Olhando a vossa inclinação divina,

          156 - - ( " Para cantar - vos, mente às Musas dada " )

          Ou fazendo que, mais que a de Medusa, 
          A vista vossa tema o monte Atlante, 
          Ou rompendo nos campos de Ampelusa 
          Os muros de Marrocos e Trudante, 
          A minha já estimada e leda Musa 
          Fico que em todo o mundo de vós cante, 
          De sorte que Alexandro em vós se veja, 
          Sem à dita de Aquiles ter enveja.



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